O gesto do Jornalista que se despede diariamente no serão dos portugueses com um piscar de olho malandreco nunca mais será o mesmo.

Com aquele piscar de olho do José ao terminar os telejornais, os portugueses passarão a lembrar-se: "Olha-me este, que diz que Cristo não era Cristão" - como se alguém pudesse nascer conotado com uma filosofia que só na idade adulta viria a lançar ou divulgar.

Ou como se fosse alguma novidade que Jesus era Judeu, segundo as suas raízes de linhagem e conforme a "profecia do prometido salvador dos judeus"...

Ou ainda, como se o cristianismo não passasse a ser alicerçado e difundido enquanto filosofia universalmente reconhecida, sobretudo, somente a partir do Século II depois de Cristo, com a Fundação da Igreja Católica.

 

A segunda acusação que fez furor por estes dias com a divulgação do novo romance de José Rodrigues dos Santos, "O Último Segredo", passa por por a nu a realidade de que a "Virgem Maria" não é merecedora do título.

Será evidente a reacção hostil de um comum católico que seja confrontado com esta verdade bíblica, a de que segundo as evidencias do novo testamento, Maria de Nazaré, tendo sido concebido seu primeiro filho enquanto rapariga virgem, "por obra e graça do Espírito Santo" ,  que a mesma perderia essa condição no seu casamento com José, sendo inclusive  descriminados vários nomes dos filhos que o casal veio a ter, "Irmãos mais novos de Jesus".

 

O que não havia necessidade, digo eu... era do JRS querer buscar publicidade gratuita desta forma baixa, que tal como dizia de José Saramago, e tratando-se de escritores com créditos reconhecidos, dispensavam-se de piscares de olhos provocadores à Igreja, não?

Pois agora, ó José, tu que pensas ter redescoberto a fórmula da pólvora para o sucesso literário, deixo-te aqui mais estas dicas de outros bons dogmas católicos facilmente desmontados pelo próprio relato bíblico, para que possas fundamentar novos enredos das tuas futuras "estórias":

 

  1. O Dogma da Santíssima Trindade
  2. O da Imortalidade da Alma
  3. O do Inferno
  4. O do dia Natal
  5. O da Proibição da Carne na Quaresma
  6. O da Cruz (Jesus foi pregado numa estaca ou tronco direito)
  7. O do Celibato
  8. O da Confissão
  9. O da devoção a Santos
  10. e assim de repente fico-me por estes, tendo em conta que os dou de graça...

Paulo Jerónimo

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A obra de Mia Couto, Jerusalém, conhece um sucesso editorial, em França, fora do comum.

Publicada pelas edições Métailié, com o título L'accordeur de Silences, o texto de Mia Couto tornou-se ume referência.

Para Philippe Lançon que, no Libé de quinta passada (20 de Out), dedica duas páginas à análise da obra de Mia Couto, o livro assume "a arte do relato pela poesia".

 

A tradução do Português (Moçambique) é de Elisabeth Monteiro Rodrigues.

 

Imagem: Télérama, 17 de Ag de 2011, (imagem que ilustra a análise de Marine Landrot sobre o livro de Mia Couto), p.44

Este post pode e deve ser lido como a continuação de Google: Sabe traduzir Pessoa?

Nuno

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Na entevista dada à revista So Foot, deste mês de Setembro, o escritor,  Rui Zink, releva que em Portugal tudo é pretexto para falar de futebol.

Como aponta Rui Zink, mais é demasiado.

 

Fonte: So Foot, sept 2011, p.124 /  Foto: Porto: Fotografias e texto de Werner Radasewsky e Gunter Scheneider, ed. Nicolai

Nuno

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Foram precisas décadas para que se desse, finalmente, uma continuação conseguida ao romance de Pierre Boulle: La Planète des Singes.

Continuação que o realizador Rupert Wyatt soube elaborar.

Pierre Boulle, conheceu os acontecimentos da segunda guerra mundial. Em 1963, elabora o seu romance, La Planète des Singes. Não é só um romance de ciência ficção. É também um questionamento sobre o funcionamento das sociedades humanas.

Esta obra, tornando-se um clássico, começa a questionar a sociedade Francesa. Se acrescentarmos, a este suceso de edição, o sucesso da canção de Françoise Hardy, tous les garçons et toutes les filles de mon âge, praticamente publicado na mesma altura, podemos pensar que as premissas de Maio de 68 estavam reunidas nestas duas obras.

 

Curiosamente, a primeira versão cinematográfica do livro de Pierre Boulle sai nos USA em 1968. O Filme é de Schaffner, tendo como actor principal C. Heston.

Da obra de Pierre Boulle, nascerão Bandas Desenhadas, folhetins televisivos e vários filmes. Em 2001, Tim Burton, tentou uma adaptação demasiada pretensiosa (opinião subjectica) que não teve qualquer êxito.

O filme de Rupert Wyatt, focando a pesquisa sobre a doença de Alzheimer, nos remete para a memória do texto e da tela.

Existem demasiados paplimpsestes, piscadelas..., na obra de Wyatt para que se possa resumir tudo. O filme apresenta uma vitória do dominados sobre os dominantes. César deveria chama-se Espartacus..., por exemplo.

 

O filme de Rupert Wyatt, sem 3D e sem cenas de sexo ou violência deliberada, convida-nos a pensar a ciência e o progresso.

Interessante verificar que, novamente, Andy Serkis, após a sua prestação no "Senhor dos Anéis", no papel de Gollum, se torna o actor que sabe actuar com os seus olhos, qualquer que seja o disfarce ou a técnica elaborada.

O Planeta dos Macacos: A origem, é um filme que nos leva a meditar sobre a ciência, o progresso e a violência.

E talvez melhor que certos pomposos tratados filosóficos.

 

Foto: Le Figaro Magazine, 12 de Ag de 2011, p. 76

Nuno

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 (clicar para aumentar)

O "Centre National d'Education Pédagogique" acaba de publicar um trabalho de grande qualidade em torno do filme de Manoel de Oliveira: "Singularidades de uma rapariga Loura".

Tive conhecimento desta publicação no meio desta semana.

E fiquei a pensar se Manoel de Oliveira, tal como Saramago, por exemplo, não é mais conhecido e admirado no estrangeiro do que em Portugal ?

 

Ou talvez o poeta e filósofo Hans Magnus Enzensberger tenha razão, quando escreve : " como explicar que ninguém detesta os Portugueses, exceptuando os próprios Portugueses ".

 

Fonte : H. M. Enzensberger, Ach Europa!, Frankfurt am 1987.

Nuno

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Amor é fogo que arde sem se ver.

Je vis, je meurs : je me brûle et me noie ;

é ferida que dói e não se sente ;

J'ai chaud extreme en endurant froidure:

é um contentamento descontente.

La vie m'est trop molle et trop dure.

é dor que desatina sem doer;

J'ai grands ennuis entremêlés de joie.

 

Louise Camões (1525 ? - 1580) & Luís Labbé (1525 - 1566)

Nuno   

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Durante seis meses a MC93 de Bobigny vai acolher uma parte da obra de António Lobo Antunes em residência.

Tal encenação e programação é algo inédito no que toca à cultura Portuguesa em França.

No que diz respeito à divulgação da obra de Lobo Antunes, não deixa de ser questionante que se tenha esquecido o livro que lhe deu uma dimensão internacional.

Os Cus de Judas, talvez por dizer respeito a países que conheceram guerras coloniais, ficou nas brumas da memória. Ou talvez que essa mesma memória ainda não seja bruma e que, por essa razão, se tente apagar o que ainda hoje continua válido :

 

"...eu odiava, Sofia, os que nos mentiam e nos oprimiam, nos humilhavam e nos matavam em Angola, os senhores sérios e dignos que de Lisboa nos apunhalavam em Angola, os políticos, os magistrados, os polícias, os bufos, os bispos, os que ao som de hinos e discursos nos enxotavam para os navios da guerra e nos mandavam para África, nos mandavam morrer em África e teciam à nossa volta melopeias sinistras de vampiros. "

(Extracto da obra Os Cus de Judas)

 

Nuno

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Um grande filme, uma obra prima que soube dar memória aos folhetins da imprensa escrita do século XIX.

Um filme que não deixa morrer a memória !

Um filme que mergulha na obra Camilo Castelo Branco.

Realizado pelo cineasta Franco-Chileno, Raúl Luìz, este filme lembra que a literatura Portuguesa do século XIX é muito mais que Eça de Queiróz.

Raramente, um filme foi tantas vezes citado, elogiosamente, na crítica Francesa.

 

Imagem : Médias e cartazes Franceses.

(trailer aqui)

Nuno

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[clicar para ampliar / cliquez pour agrandir]

 

A revista "Latitudes" publicou em Junho de 2006 um artigo fabuloso cuja autora é Maria Graciete Besse.

Trata-se dum texto que re-visita a obra : Novas Cartas Portuguesas.

Foi no contexto da época setenta que foi publicada. Foi uma obra que marcou o movimento feminista Europeu.

Quanto a mim, este artigo mostra que o Fascismo Português vai muito além da PIDE e das torturas físicas.

O Salazarismo foi também uma tortura psicológica, impedindo a palavra e diálogo que são indispensáveis à democracia.

Quando lemos o artigo, é impossível não nos atardarmos sobre as confidências de Maria Velho da Costa ( p.20 ) : As mulheres Portuguesas, mesmo as mais esclarecidas não ousavam, nos anos setenta, falar de orgasmo feminino.

 

Pergunto-me se mudou mesmo algo na sociedade Portuguesa ?

Segue, "aqui" , na sua totalidade o artigo de "Latitudes".

Agradecemos, vivamente, a colaboração da revista Latitudes.

Nuno

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O prémio do melhor livro estrangeiro Hyatt Madeleine coube a Gonçalo M. Tavares pelo seu último romance.

Uma justa recompensa.

A tradução de Viviane Hammy é fabulosa.

Nuno

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Sem rir, Sergey Brin,  o co-fundador de Google apresentou, esta quarta-feira , a nova dinámica da pesquisa do site e declarou : " Queremos que Google se torne o terceiro hemisférico do seu cérebro ".

George Orwell, pintou e conceptualizou a polícia do pensamento com a sua obra : 1984 . Ou seja, o conceito do "Big Brother".

A obra de Orwell pinta um mundo terrível e totalitário.

 

E eu continuo a perguntar se "Google sabe traduzir Fernando Pessoa?"

 

Fonte : Libération, 10 de Set de 2010. | Foto : El País, 4 de Agosto de 2010.

Nuno

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A imprensa Francesa focou em grande destaque nas suas  várias "une" o falecimento de Saramago.

É com a sua obra Memorial de Convento que Saramago alcançou notoriedade. Traduzida em Francês por Geneviève Leibrich em 1987 com o título Le Dieu Manchot, foi um sucesso de livraria e, rapidamente, foi editada em livro de bolso.

 

Memorial de Convento é uma obra prima da literatura mundial que tem como pano de fundo a sociedade Portuguesa do século XVIII e a Inquisição. Mas o texto não diz só respeito à sociedade Portuguesa. É um livro que visita a história da Europa e da humanidade e, sobretudo, a história dos humilhados e dos ofendidos.

 

A tradução do título, Memorial de Convento, é em Francês, O Deus Maneta ( Le Dieu Manchot ).

O génio da tradutora Francesa foi de ter resumido no título da tradução Francesa a síntese da obra. E, deste ponto de vista, talvez se possa entender porque Memorial de Convento é o alicerce de toda a obra de Saramago.

É à direita de Deus que se sentam os seus eleitos. Leiam-se os textos.  Deus é maneta da mão esquerda.

 

Memorial de Convento apresenta uma trindade diferente :

 

1 : Deus é o Padre ( o Pai )  Bartolomeu Lourenço de Gusmão. Desafiando a Inquisição, fará funcionar o primeiro engenho voador da história da humanidade, a Passarola.

2 : O Filho é Baltasar Sete Sóis e que é maneta porque perdeu uma mão na guerra.

3 : O Espírito Santo é Blimunda Sete Luas que pode ver a vontade dos outros.

 

Esta Trindade Profana é subversão e é, também, progresso e inovação. É a memória eterna do confronto entre barroco e classicismo, entre os humildes e os poderosos.

Citando um dos personagens do romance A Caverna : " Prevejo que a partir de agora vou desaparecer da paisagem, espero, ao menos que não esquecerão que existo ."

Haveriam muitos mais aspectos a desenvolver. Mas fica um sumário. E continuo a pensar que Memorial de Convento só pode ser consensual para quem nunca leu a obra.

 

obs : A citação está traduzida do Francês. Não possuo a obra, A Caverna, em Português. Peço desculpa.

Imagens : Capas dos livros citados.

Este post pode ter interligação com : Google sabe traduzir F. Pessoa ?

Nuno

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. Não existem adjectivos para classificar a última obra de

. Jodorowsky e de Janjetov : O-G R E G O-D.

. Que tal verificar os óculos ? OG & OD ?

. Este duo mítico adaptou livremente à Bd o relato de

. Jules Vernes, Deux ans de vacances.

. O cenário é de Jodorowsky. O desenho e a cor são de

. Janjetov.

 

. O Sloughi é uma nave espacial que leva em seu seio oito

. herdeiros das principais famílias da galáxia. Estes são

. acompanhados por um robot e um escravo.

Rapidamente, as rivalidades aparecem e o Sloughi em perdição desagua num planeta desconhecido.

Para Jodorowsky, esta Bd, inspirada do relato de Jules Verne, é um símbolo que alerta para a podridão da nossa civilização que nos conduz para o abismo.

 

 

Imagens : Capa do álbum e pormenor duma vinheta.

Nuno

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Segundo o dicionário Francês Le Robert : Autodafé.

Segundo o grande escritor Búlgaro de língua Alemã, Elias Canetti : Auto-Da-Fé.

Auto-da-Fé ou Autodafé pouco importa. Para a história da humanidade ficou esta palavra bem Portuguesa.

Elias Canetti foi Prémio Nobel de literatura em 1981.

 

 

Imagens: Libération de 7-05-2010 & capa do livro de Elias Canetti

Nuno

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Quando a memória nos faz ser Humanidade !

" Debaixo da apartheid não éramos suficientemente brancos e agora não somos suficientemente negros. "

Palavras dum mestiço que mora no Cabo.

 

E agora palavras dum narrador Angolano:

" Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura do café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez "

 

Textos : Libération, 4 de Junho de 2010, p.9 e Mayombe, Pepetela ed. 70, p. 16

Imagem : Reprodução, Óleo sobre Tela, Mestiço, Cândido Portinari, 1934

Nuno

Lorsque la mémoire nous fait être Humanité !

"Sous l'apartheid, nous n'étions pas assez blancs et maintenant nous ne sommes pas assez noirs."

Des mots d'un métis habitant Le Cap.

 

Et des mots d'un narrateur angolais :

"Je suis né dans la région de Gabela, le pays du café. J'ai reçu la couleur noire de ma mère qui a été melangée à celle de mon regretté père, un commerçant portugais. Je porte en moi ce qui est inconciliable et cela est ma force. Dans un univers qui ne comprend que le oui ou le non, le blanc ou le noir,  je représente le peut être. "

 

Textes : Libé, 4 juin 2010, p. 9 et Mayombe, Pepetela, ed.70, p.16

Image : Reproduction, toile : Mestiço, Cândido Portinari, 1934

Nuno

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